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Segurando Um Lobo Pelas Orelhas

Segurando um lobo pelas orelhas

Brasília, 02 de outubro de 2019.

Auribus teneo lupum , expressão latina cuja tradução literal significa segurando um lobo pelas orelhas. Ou seja, representa situação na qual um problema ainda não foi superado e, seja qual for a decisão ou caminho que se tome, certamente, dificuldades serão encontradas¹.

O provérbio aparece no texto de Terêncio, Publius Terentius Afer , dramaturgo e poeta romano do sec. II a.C. Ele colocou as palavras na boca de um de seus personagens, Antipho, e, ao mesmo tempo, fez ótimo favor ao explicar detalhadamente seu significado², note-se:

“Eu estou segurando um lobo pelas orelhas; e não sei como me livrar dele, nem como mantê-lo”.

“E, se você já segurou nas orelhas de um lobo, sabe que há duas opções: segurar as orelhas ou deixá-las ir. Você também sabe que ambas podem muito bem terminar em desastre, então você está em um aperto”.

Terêncio escreveu dessa forma o provérbio romano por desconhecer as condições de trabalho médico na Secretaria de Saúde do DF, pois, se nosso contemporneo fosse o dramaturgo, talvez assim escrevesse:

“Eu estou segurando um esfaqueado no pronto socorro sem anestesista disponível no centro cirúrgico; e não tenho para onde encaminhá-lo, nem como mantê-lo”.

“E, se você já teve um esfaqueado com o centro cirúrgico inoperante, sabe que há duas opções: segurar o paciente no PS ou tentar transferi-lo. Você também sabe que ambas podem muito bem terminar em desastre, então você está em um aperto”.

O provérbio atualizado também ilustra o fato de que, às vezes, não há soluções perfeitas para um problema, podendo, inclusive, não haver qualquer solução. Todavia, há uma opção paradoxal impensável para os antigos romanos, mas estranhamente presente nos dias atuais: a do ator atiçar o lobo enquanto o segura pelas orelhas.

Diante de situação de risco e em meio à crise, não é admissível que o profissional médico adote postura belicosa com os pacientes ou com seus colegas de trabalho. Mais que faltas éticas, tratar mal o ser humano, extrapolar os limites da sua competência, recusar atendimento ou violar sigilo profissionaldiante de um cenário já desastroso, potencializamo alcance negativo dos fatos e expõem o médico a repercussão vexatória. É como se propositalmente fomentasse a ira do lobo que se tem pelas orelhas.

Por mais que se concebam as descomposturas como mecanismos de fuga, desesperos e adoecimentos diante da total impotência frente as tragédias de um quotidiano médico desaparelhado e descontingenciado. Ainda assim, não pertence ao cuidador contribuir negativamente para o drama dos pacientes, ao contrário, esperam todos que o profissionalismo se sustente mesmo diante do completo fracasso.

Nesse sentido, fechar unidades de saúde sem ser competente para tal; proferir conclusões prematuras sobre insucessos na assistência de colegas; recusar atendimentos de emergência; tecer comentários e conceder entrevistas descuidando o sigilo profissional; e, sobretudo, expor os pacientes à imprensa, cuja sanha travestida do dever de informar transpassa em muito os limites da ética, são todas condutas reprováveis.

Ninguém nunca disse que seria fácil, em vez disso, no contexto teológico, escreveu Lucas (4:23): “Medice, curate ipsum” ; médico, cuida-te de ti mesmo. Igualmente se nota dos aforismos Hipocráticos sobre o médico, onde se lê: “Os que não tem o corpo em boas condições são considerados por muitos incapazes de cuidar bem dos outros”³. No mesmo sentido, o Prof. Dr. Diego Gracia Guillén há tempos atenta para a síndrome do desgaste profissional, verdadeira epidemia que se abate com efeitos devastadores sobre as profissões de cuidado. Ele alerta seriamente para os “cuidados do cuidador” e propõe que a síndrome do desgaste profissional não se relaciona tanto com a rotina profissional, quanto com a incapacidade do médico em manejar conflitos de valor, nas palavras do próprio Prof. Guillén4:

“... a síndrome do desgaste profissional não tem muito a ver com a rotina profissional, com a falta de tempo ou com o excesso de pacientes, mas com a incapacidade dos profissionais para manejar adequadamente conflitos de valor. Não se trata, então, de um problema diretamente patológico ou psiquiátrico, pelo menos no sentido que usualmente se dá esses termos, e sim de uma questão mais sutil, muito mais importante: o modo como nós, profissionais, manejamos o universo dos valores; é, pois, um problema de valor”.

Por fim, extrai-se da medicina ofício de formação longa e concorrida, de exercício com alto risco profissional, de trabalho insalubre e adoecedor. Nossa arte exige de nós educação continuada, cuidados pessoais, conduta ética e o permanente manejo de conflitos de valor. Ou seja, não é apenas difícil alcançar a condição de médico, como também é árduo mantê-la.

Médico, cuida-te de ti mesmo, pois vais segurar lobos pelas orelhas.

Referências:

  1.  Disponível em:  https://www.latinitium.com/blog/auribus-teneo-lupum. Acesso em: 22/09/2019 

    2. RILEY,H.T. The Comedies of Terence; literally translated in to English prose. New York. 1887.  Disponível em:  http://www.gutenberg.org/files/22188/22188-h/main.html. Acesso em 22/09/2019 

    3.RIBEIRO, D. C. A Relação Médico-Paciente: velhas barreiras, novas fronteiras. São Paulo. Centro Universitário São Camilo. 2010; p. 14-16 

    4.Ibidem 

Cristofer D. B. Martins

Conselheiro do CRM-DF

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