Rede dos Conselhos de Medicina
Outubro Rosa, temos algo a comemorar?

Outubro Rosa, temos algo a comemorar? 

 

Brasília, 10 de outubro de 2019. 

 

Todos os anos, no mês de outubro, os edifícios públicos e alguns monumentos são iluminados na cor Rosa, que simboliza a luta contra o câncer de mama. O movimento internacional de conscientização para o controle do câncer de mama, o “Outubro Rosa”  foi criado no início da década de 1990 pela Fundação Susan G. Komen for the Cure em Estados Unidos. A data é celebrada anualmente, com o objetivo de compartilhar informações e promover a conscientização sobre a doença; proporcionar maior acesso aos serviços de diagnóstico e de tratamento e contribuir para a redução da mortalidade.  

O objetivo principal é conscientizar o público em geral, e principalmente as mulheres, dos fatores de risco, dos fatores de proteção e das medidas de detecção precoce relacionadas ao câncer de mama. As sociedades de especialidades e as entidades médicas trabalham arduamente para esclarecer e informar adequadamente a população. Às vezes a luta da informação é contra as fakenews e contra alguns mitos amplamente divulgados nas redes sociais, como aconteceu recentemente com a propagação de um vídeo de um médico que disseminou de maneira irresponsável informações distorcidas sobre a detecção e diagnóstico do câncer de mama. Para se contrapor a esta desinformação, a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), o Colégio Brasileiro de Radiologia (CBR) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) divulgaram nota de esclarecimento1-2, visando informar corretamente a população. 

Ainda temos muito trabalho pela frente e os desafios no controle do câncer de mama dependem não apenas da realização da mamografia, mas também do acesso ao diagnóstico e ao tratamento com qualidade e no tempo oportuno. As estadísticas mostram um aumento significativo do câncer de mama no mundo e no Brasil. Dados mais recentes do Globocan3 apontam para que neste ano 2.088.849 sejam acometidas desta doença no mundo e no Brasil não é diferente, dados do INCA apontam uma incidência crescente, para o Brasil, estimam-se 59.700 casos novos de câncer de mama, para cada ano do biênio 2018-2019, com um risco estimado de 56,33 casos a cada 100 mil mulheres4. Por tanto há necessidade de se realizar ações ao longo de todo o ano e não apenas no mês de outubro. 

Dados recentes publicados pelo INCA5 mostraram que em 2016, foram registrados, no Brasil, 16.069 óbitos por câncer de mama em mulheres e que entre 1980 e 2016, as taxas padronizadas de mortalidade por câncer de mama variaram de 9,2 óbitos a 12,4 óbitos por 100 mil mulheres, o que representa um aumento de 33,6% em 35 anos de observação, indicando que a pesar das campanhas de conscientização e os esforços pelo diagnóstico precoce a mortalidade continua aumentando. 

Então será que temos algo a comemorar no outubro rosa? A resposta é sim, temos conseguido que a população conheça cada dia mais sobre a existência desta doença e o caminho a percorrer no diagnostico precoce, temos alcançado visibilidade na mídia e nos gestores da saúde que tem disponibilizado maiores recursos para o diagnóstico e tratamento, temos incorporado novas tecnologias que resultaram no aumento de sobrevida das pacientes e tem permitido individualizar os tratamentos. Temos a comemorar alguns avanços na legislação como a Lei nº 12.732/12 (em vigor desde 23/05/3013) que estabeleceu que o primeiro tratamento oncológico no SUS deve se iniciar no prazo máximo de 60 dias a partir da assinatura do laudo patológico ou em prazo menor conforme necessidade terapêutica do caso registrada no prontuário do paciente ou a Lei nº 13.770 de 2018, que garante cirurgia plástica reconstrutiva da mama em casos de mutilação decorrente de tratamento de câncer, esta lei estabelece ainda que, quando existirem condições técnicas, a reconstrução da mama seja efetuada de forma imediata. 

O que nos falta? Ainda estamos muito atrás no acesso a população aos métodos diagnósticos, especialmente a mamografia para a faixa etária de maior risco de 50 a 69 anos. Dados do estudo publicado em 20196, sobre a cobertura de mamografia no Brasil, para as pacientes na faixa de 59 a 69 anos, mostrou que atualmente só 24% desta população teve acesso a mamografia, reconhecendo uma discreta melhora, porem ainda muito distante das taxas de países com rastreamento organizado. 

O caminho a percorrer ainda é longo e tortuoso, porem é inegável o avanço da ciência na descoberta de novas terapias para atender as pacientes acometidas de câncer de mama, devemos continuar na luta pelo investimento de recursos para atendimento no SUS, em todas as esferas, (prevenção, diagnóstico e tratamento) de onde dependem a maioria de nossa população e só desta forma conseguiremos minimizar a dor e sofrimento das pacientes e de seus familiares que são acometidas pelo câncer e tem que iniciar um verdadeiro via-crúcis com objetivo de alcançar a tão almejada cura. 

Referências:

  • 4. Estimativa 2018: incidência de câncer no Brasil / Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Coordenação de Prevenção e Vigilância. – Rio de Janeiro: INCA, 2017.5. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. A situação do câncer de mama no Brasil: síntese de dados dos sistemas de informação. / Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. – Rio de Janeiro: INCA, 2019.6. Rodrigues et al. Temporal changes in breast cancer screening coverage provided under the Brazilian National Health Service between2008 and 2017. BMC Public Health (2019) 19: https://doi.org/10.1186/s12889-019-7278-z

Farid Buitrago Sánchez 

Presidente do CRM-DF 

 
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